Lactato não é vilão: o que realmente causa a fadiga na corrida?
- Renata Popreaga

- 13 de abr.
- 2 min de leitura
Durante muito tempo, o lactato foi apontado como o grande responsável pela fadiga muscular. Quem nunca ouviu que “o ácido lático trava o músculo”?
Mas a ciência evoluiu — e hoje sabemos que essa história não é bem assim.
Lactato também é combustível
Ao contrário do que se acreditava, o lactato não é um resíduo metabólico inútil. Ele é, na verdade, uma importante fonte de energia.
Durante exercícios de alta intensidade, o corpo produz lactato a partir da glicose. Esse lactato pode ser reutilizado por diferentes tecidos, como o coração e outras fibras musculares, funcionando como um verdadeiro “combustível alternativo”.
Esse processo é conhecido como lactate shuttle, um sistema inteligente de reaproveitamento energético dentro do próprio organismo.
Ou seja: produzir lactato não é um problema — é parte da solução.
Então por que sentimos fadiga?
A sensação de queimação, peso nas pernas e queda de performance não vem do lactato em si.
Ela está mais relacionada ao acúmulo de íons hidrogênio (H⁺), que ocorre junto com o aumento da intensidade do exercício. Esse acúmulo leva à redução do pH muscular, criando um ambiente mais ácido — o que interfere na contração muscular e na produção de energia.
Além disso, outros fatores também contribuem para a fadiga, como:
acúmulo de fosfato inorgânico
depleção de substratos energéticos
fadiga do sistema nervoso
Ou seja, a fadiga é multifatorial — não dá para colocar a culpa em um único elemento.
Existe alguma estratégia para reduzir essa acidose?
Em alguns contextos específicos, principalmente em provas de alta intensidade ou treinos muito exigentes, é possível utilizar estratégias para melhorar a tolerância ao ambiente ácido.
As mais conhecidas são:
Bicarbonato de sódio
Atua no meio extracelular (no sangue), ajudando a tamponar os íons H⁺ e retardar a queda do pH.
Beta-alanina
Aumenta os níveis de carnosina dentro do músculo, que funciona como um tampão intracelular, ajudando a lidar melhor com a acidose.
Apesar de terem um objetivo semelhante (melhorar a capacidade de tamponamento), atuam em locais diferentes do organismo.
Vale a pena usar?
Depende.
Essas estratégias podem trazer benefício em exercícios de alta intensidade e curta a média duração, mas não são necessárias para todos os atletas — e devem ser utilizadas com orientação, já que podem causar efeitos colaterais ou não trazer vantagem em determinados contextos.
Conclusão
O lactato deixou de ser vilão para se tornar peça-chave no metabolismo energético.
Entender isso muda completamente a forma como enxergamos a fadiga e, principalmente, como estruturamos estratégias nutricionais para performance.
Mais do que “evitar o lactato”, o foco deve ser em melhorar a capacidade do corpo de produzir, reutilizar e tolerar melhor os subprodutos do exercício.




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